
Estratégia de tratamento combina prednisolona e enoxaparina. Ela foi desenvolvida como uma abordagem imunológica para casos selecionados de falhas recorrentes de Fertilização in Vitro.
O Bondi Protocol é uma estratégia utilizada em alguns contextos de Reprodução Assistida, principalmente diante de falhas repetidas de implantação embrionária após tratamentos de Fertilização in Vitro (FIV). O protocolo foi descrito a partir da associação entre o uso de um corticoide, a prednisolona, e um anticoagulante, a enoxaparina.
A proposta surgiu a partir da hipótese de que alterações na resposta imunológica poderiam estar relacionadas a algumas situações de falha de implantação. No protocolo originalmente descrito, a indicação considerava, entre outros fatores, a atividade de células natural killer (NK) no sangue.
Apesar de haver estudos com resultados favoráveis em determinados grupos, o Bondi Protocol não é considerado um tratamento comprovadamente eficaz para aumentar as chances de nascimento após a FIV em todas as pacientes. As evidências sobre imunoterapia na Reprodução Assistida ainda são limitadas, e recomendações recentes não indicam o uso rotineiro de anticoagulantes ou terapias imunológicas para falha repetitiva de implantação ou perda gestacional recorrente sem uma indicação clínica específica.
Índice
O que é o Protocolo Bondi e qual é o seu objetivo na Reprodução Assistida?
O Bondi Protocol é uma estratégia de imunomodulação que combina prednisolona e enoxaparina, uma heparina de baixo peso molecular. O protocolo foi descrito inicialmente para mulheres com falhas repetidas de FIV e atividade elevada de células NK, buscando modificar aspectos da resposta imunológica durante o período de transferência embrionária e início da gestação.
A prednisolona é um corticoide com ação imunossupressora. Já a enoxaparina é um anticoagulante que atua principalmente na coagulação sanguínea. No contexto do Bondi Protocol, a proposta é utilizar a enoxaparina em baixa dose não apenas por seu efeito anticoagulante, mas também por possíveis efeitos relacionados à implantação e à modulação da resposta imunológica.
No protocolo originalmente publicado, a prednisolona é iniciada no começo do ciclo de transferência e é associada à enoxaparina. O tratamento pode ser mantido durante as primeiras semanas da gestação quando ocorre gravidez. A forma de utilização, entretanto, deve ser definida pelo médico e pode variar conforme a situação clínica.
É importante destacar que o Bondi Protocol foi desenvolvido como uma estratégia empírica, e não como um protocolo universal da FIV. Sua utilização depende da avaliação do especialista e da análise dos possíveis benefícios e riscos para cada paciente.
Quais são os medicamentos que compõem o Protocolo Bondi e como eles atuam?
Os dois medicamentos que caracterizam o Bondi Protocol originalmente descrito são a prednisolona e a enoxaparina.
A prednisolona é um corticoide que reduz a atividade do sistema imunológico. No contexto do protocolo, sua utilização está relacionada à hipótese de que uma resposta imunológica excessiva poderia interferir na implantação do embrião. A prednisolona pode reduzir a atividade de determinadas células do sistema imunológico, incluindo células NK.
A enoxaparina é uma heparina de baixo peso molecular utilizada principalmente como anticoagulante. Ela reduz a formação de coágulos por interferir na cascata de coagulação. No Protocolo Bondi, sua utilização em baixa dose foi proposta também por possíveis efeitos relacionados à implantação, embora o benefício da heparina para aumentar as taxas de nascimento em mulheres sem indicação anticoagulante específica não esteja comprovado.
Por isso, a prescrição desses medicamentos não deve ser feita apenas pela ocorrência de uma falha na FIV. O médico precisa considerar o histórico reprodutivo da paciente, as características dos ciclos anteriores e a existência de condições que possam justificar o uso de anticoagulantes ou corticoides.
O uso de corticoides e anticoagulantes no Protocolo Bondi causa efeitos colaterais?
Sim. Tanto a prednisolona quanto a enoxaparina podem causar efeitos adversos, e a avaliação desses riscos faz parte da decisão sobre utilizar ou não o protocolo.
A prednisolona, especialmente quando utilizada em doses maiores ou por períodos prolongados, pode causar efeitos como aumento da glicemia, retenção de líquidos, alterações da pressão arterial, alterações de humor e maior suscetibilidade a infecções. O risco depende da dose, do tempo de tratamento e das condições de saúde da paciente.
A enoxaparina, por sua vez, pode aumentar o risco de sangramentos e provocar hematomas no local das aplicações. Reações alérgicas e alterações das plaquetas são eventos menos comuns, mas também podem ocorrer.
Por isso, antes de prescrever o Bondi Protocol, o especialista deve avaliar o histórico clínico da paciente, medicamentos em uso, presença de alterações da coagulação, fatores de risco para sangramento e outras condições que possam modificar a segurança do tratamento.
Para quem o Bondi Protocol é prioritariamente indicado?
O Bondi Protocol foi desenvolvido principalmente para mulheres com falhas repetidas de FIV, especialmente aquelas que apresentavam atividade elevada de células NK em exames utilizados pelo grupo que descreveu a estratégia. No estudo original, mulheres com falhas repetidas de implantação receberam o protocolo de acordo com os resultados da atividade de células NK no sangue.
Entretanto, isso não significa que a presença de células NK elevadas seja atualmente considerada uma indicação estabelecida para o tratamento. As recomendações mais recentes da Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva (ASRM) não recomendam rotineiramente testes imunológicos, incluindo avaliação de células NK, para investigação de perda gestacional recorrente. Na falha recorrente de implantação, a entidade também não recomenda rotina de terapias como heparina para melhorar a taxa de nascidos vivos.
Portanto, o Bondi Protocol deve ser entendido como uma estratégia que pode ser considerada em situações selecionadas, e não como uma etapa-padrão da FIV.
Falhas repetidas de implantação na FIV
A falha recorrente de implantação ocorre quando transferências embrionárias não resultam em uma gestação, mesmo após tratamentos de Reprodução Assistida. Antes de considerar uma abordagem imunológica, o especialista deve investigar outras possíveis causas para o insucesso.
Essa avaliação pode envolver a análise da qualidade e das características dos embriões transferidos, da cavidade uterina, do endométrio e de fatores relacionados à saúde reprodutiva. Dependendo do histórico médico da paciente, podem ser indicados exames de imagem, histeroscopia ou investigação de condições específicas.
A ASRM destaca que algumas causas podem ser investigadas e tratadas em pacientes com falhas recorrentes de implantação, mas não recomenda o uso rotineiro de heparina com o objetivo de aumentar a taxa de nascidos vivos nessa população.
Histórico de abortamento de repetição sem causa aparente
O Bondi Protocol também é associado, na prática, a situações de perdas gestacionais recorrentes sem causa identificada. A hipótese é semelhante: uma alteração da resposta imunológica poderia participar da interrupção da gestação.
No entanto, a investigação de abortamentos recorrentes deve começar pela identificação de causas reconhecidas, como alterações cromossômicas, alterações anatômicas do útero, síndrome antifosfolípide e outros fatores clínicos.
A ASRM, em sua recomendação de 2026, não recomenda anticoagulantes para mulheres com perda gestacional recorrente inexplicada, pois estudos não demonstraram benefício consistente sobre a taxa de nascidos vivos ou de abortamento.
A mesma recomendação também afirma que não há evidências suficientes para recomendar rotineiramente testes e tratamentos imunológicos nesse contexto. Portanto, quando o Bondi Protocol é considerado, a decisão deve ser individualizada e discutida com o especialista.
Fator endometrial e alterações imunológicas uterinas
O endométrio precisa apresentar condições adequadas para que o embrião consiga se implantar. Por isso, diante de falhas repetidas, o médico pode investigar alterações da cavidade uterina e do endométrio antes de considerar tratamentos adicionais.
Já a hipótese de alterações imunológicas uterinas é mais controversa. Embora células do sistema imunológico, incluindo células NK uterinas, participem naturalmente do ambiente endometrial, ainda não está estabelecido que uma alteração identificada em testes imunológicos seja necessariamente a causa de uma falha de implantação ou que o tratamento dessa alteração melhore os resultados da FIV. A ASRM atualmente não recomenda testes de células NK como parte da investigação rotineira de perda gestacional recorrente.
Por esse motivo, o especialista deve primeiro investigar causas mais bem estabelecidas de falha de implantação e avaliar se existe alguma indicação clínica específica para terapias com anticoagulantes ou corticoides.
O Bondi Protocol garante o sucesso da Fertilização in Vitro (FIV)?
Não. O Bondi Protocol não garante a implantação do embrião, a gravidez ou o nascimento de um bebê.
O estudo que descreveu o protocolo avaliou retrospectivamente 1.786 ciclos de transferência embrionária, dos quais 460 utilizaram o Bondi Protocol. Considerando todos os ciclos, a taxa de nascidos vivos foi semelhante entre os grupos: 26% nos ciclos com Bondi Protocol e 28% nos ciclos que utilizaram o protocolo convencional. Entre mulheres com atividade elevada de células NK, entretanto, os autores observaram uma taxa de nascidos vivos de 28% com o Bondi Protocol contra 6% no grupo convencional.
Como se trata de um estudo retrospectivo e não randomizado, esses resultados não são suficientes para estabelecer que o protocolo seja responsável pela diferença observada.
Além disso, recomendações atuais da ASRM apontam que não há evidência suficiente para recomendar rotineiramente heparina em pacientes com falhas recorrentes de implantação e que terapias imunológicas não devem ser utilizadas de forma indiscriminada.
Dessa forma, o Bondi Protocol não deve ser apresentado como uma forma de “aumentar a imunidade” ou garantir que o embrião seja implantado. Quando considerado, seu uso deve ocorrer após avaliação individual do histórico reprodutivo da paciente, das causas possíveis para as falhas anteriores e dos riscos associados aos medicamentos.
O planejamento da FIV deve considerar todos esses fatores, e a decisão sobre utilizar ou não o Bondi Protocol cabe ao especialista responsável pelo tratamento.
Fontes:
Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva (ASRM)
Clínica de Reprodução Humana BedMed