Alimentação, saúde do sono e nível de estresse deixam marcas nos nossos genes

Por muito tempo, acreditou-se que os genes eram imutáveis: você nascia com um conjunto fixo de instruções genéticas e não havia muito a fazer para alterá-lo. A epigenética veio mostrar que essa visão é incompleta. O modo como os genes são lidos pelo organismo pode ser modificado por fatores externos, e esses padrões de leitura podem, em alguns casos, ser transmitidos às gerações seguintes. No campo da Reprodução Humana, epigenética e fertilidade são temas cada vez mais conectados, com implicações concretas para quem está tentando engravidar.

O que é a epigenética e qual é a sua relação com a fertilidade?

A epigenética estuda as alterações na expressão dos genes que não envolvem mudanças na sequência do DNA em si. Em vez de modificar as letras do código genético, os mecanismos epigenéticos funcionam como marcadores que ligam ou desligam determinados genes, ou regulam a intensidade com que eles são ativados. Os principais mecanismos incluem a metilação do DNA, a modificação de histonas e a ação de pequenas moléculas de RNA não codificante.

A relação entre epigenética e fertilidade se dá porque esses marcadores estão presentes nos óvulos, nos espermatozoides e nos embriões, e influenciam diretamente a capacidade de fecundação, o desenvolvimento embrionário e a saúde do bebê após o nascimento.

Pesquisas publicadas no Human Reproduction Update mostram que alterações epigenéticas em gametas estão associadas a um maior risco de falhas de implantação e de perdas gestacionais recorrentes.

Como os hábitos podem influenciar óvulos, espermatozoides e embriões?

A qualidade dos gametas não é determinada apenas pela genética. Fatores do estilo de vida deixam marcas epigenéticas que podem comprometer a função dos óvulos e dos espermatozoides antes mesmo da fecundação. Entre os principais fatores com impacto documentado na epigenética e fertilidade, destacam-se:

  • Alimentação: dietas pobres em folato, vitamina B12 e colina comprometem os processos de metilação do DNA, alterando a expressão de genes importantes para o desenvolvimento embrionário.
  • Estresse crônico: o excesso de cortisol pode modificar padrões de metilação em células reprodutivas, com efeitos observados tanto nos óvulos quanto nos espermatozoides.
  • Tabagismo: está associado a alterações epigenéticas nos espermatozoides e a uma menor reserva ovariana em mulheres fumantes.
  • Obesidade e sedentarismo: o excesso de tecido adiposo altera o ambiente hormonal e epigenético dos gametas.
  • Exposição a toxinas ambientais: disruptores endócrinos presentes em plásticos, pesticidas e alguns cosméticos interferem nos mecanismos de regulação epigenética.

Esses fatores afetam tanto a mulher quanto o homem: a qualidade do espermatozoide tem peso direto no desenvolvimento embrionário e, portanto, na saúde do bebê.

A infertilidade pode ser hereditária ou influenciada pela epigenética?

Em parte, sim. Algumas causas de infertilidade têm base genética clara, como certas síndromes cromossômicas ou mutações específicas. Mas a epigenética adiciona uma camada de complexidade a essa questão: padrões epigenéticos alterados pelos hábitos de vida dos pais podem ser transmitidos aos filhos e influenciar a fertilidade da geração seguinte, mesmo sem nenhuma mutação no DNA.

Estudos em modelos animais demonstraram que filhos de pais com obesidade ou dieta pobre em nutrientes apresentam alterações epigenéticas que aumentam o risco de infertilidade e de doenças metabólicas. Embora a extrapolação direta para humanos exija cautela, os dados reforçam que a relação entre epigenética e fertilidade atravessa gerações e não se limita ao indivíduo.

O que é gestação epigenética?

O termo “gestação epigenética” não é uma nomenclatura médica formal, mas é usado para descrever o conjunto de influências epigenéticas que atuam sobre o embrião e o feto durante a gravidez. Os primeiros dias após a fecundação são um período de intensa reprogramação epigenética: o embrião apaga a maior parte dos marcadores herdados dos gametas e estabelece novos padrões de expressão gênica, adequados ao desenvolvimento embrionário.

Essa janela de reprogramação é sensível ao ambiente uterino: deficiências nutricionais, estresse materno intenso, exposição a toxinas e infecções durante a gestação podem interferir nesse processo, com consequências que vão desde um maior risco de complicações na gravidez até impactos na saúde metabólica e imunológica da criança no longo prazo. É mais um ponto de convergência entre epigenética e fertilidade — ou, neste caso, entre epigenética e saúde gestacional.

Qual é a relação entre epigenética e ovodoação?

Esse é um dos aspectos mais instigantes da pesquisa em Epigenética Reprodutiva. Durante muito tempo, acreditou-se que, na ovodoação, o bebê herdaria características genéticas apenas da doadora. Porém, a epigenética mostrou que a receptora também exerce influência sobre o desenvolvimento do embrião.

O endométrio materno produz substâncias — incluindo microRNAs e moléculas de sinalização — que interagem com o embrião durante a implantação e os primeiros dias de desenvolvimento, podendo modificar a expressão de alguns genes. Além disso, o ambiente uterino da receptora pode deixar marcas epigenéticas no bebê, mesmo quando o material genético é inteiramente da doadora. Esse dado não altera os protocolos clínicos da ovodoação, mas amplia a compreensão de como epigenética e fertilidade interagem em diferentes contextos reprodutivos.

A epigenética também é importante na Fertilização in Vitro (FIV)?

Sim, e essa é uma área ativa de investigação. O processo de FIV envolve a manipulação de gametas e embriões em laboratório, em condições que diferem do ambiente natural; e o cultivo embrionário em meios artificiais, a criopreservação e outras etapas do processo podem induzir alterações epigenéticas nos embriões.

Os dados disponíveis até o momento são, em sua maioria, tranquilizadores: crianças nascidas por FIV apresentam saúde comparável à de crianças concebidas de forma espontânea, com diferenças epigenéticas pequenas e cuja relevância clínica ainda está sendo estudada. Ainda assim, a pesquisa sobre epigenética e fertilidade no contexto da Reprodução Assistida é relevante para o aprimoramento contínuo dos protocolos de laboratório.

É possível reduzir os impactos negativos na epigenética antes da gravidez?

Sim, e esse é um dos aspectos mais encorajadores da pesquisa em Epigenética Reprodutiva: os marcadores epigenéticos são, em grande parte, reversíveis. Mudanças de hábito adotadas antes da concepção podem melhorar o perfil epigenético dos gametas e criar condições mais favoráveis para o desenvolvimento embrionário.

As medidas com maior respaldo científico incluem adotar uma dieta rica em folato, colina e antioxidantes, reduzir o estresse por meio de práticas regulares de relaxamento, interromper o tabagismo pelo menos três meses antes de tentar engravidar, manter um peso corporal saudável, praticar atividade física moderada e regular, e limitar a exposição a toxinas ambientais.

Cada um destes fatores atua diretamente nos mecanismos que conectam epigenética e fertilidade, e pode ser abordado no período pré-concepcional.

Como a Clínica BedMed orienta pacientes sobre fatores que influenciam a fertilidade?

Na Clínica BedMed, a avaliação dos pacientes que buscam engravidar vai além dos exames hormonais e do mapeamento anatômico. A equipe considera o contexto de vida de cada paciente — homens e mulheres ­— para identificar fatores que possam estar afetando a fertilidade por mecanismos que incluem, mas não se limitam, às causas convencionais.

A orientação pré-concepcional contempla alimentação, suplementação, manejo do estresse, cessação do tabagismo e avaliação de exposições ambientais relevantes — todos fatores com impacto documentado na epigenética e fertilidade. Essa abordagem integrada reconhece que preparar o organismo para a gestação é um processo que começa antes da primeira tentativa e que os hábitos de hoje constroem o ambiente em que um novo ser vai se desenvolver.

Agende sua consulta na Clínica BedMed e saiba mais.

 

Fontes

Human Reproduction Update (Oxford Academic)

Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA)

Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO)