Entenda como alterações genéticas podem impactar a fertilidade e a gravidez

A infertilidade é definida como a incapacidade de conceber após 12 meses de relações sexuais regulares sem proteção. Estima-se que em 30% dos casos seja causada por fatores femininos, em 30% por fatores masculinos, em 30% por fatores mistos e, nos casos restantes, que a causa seja desconhecida (ISCA).

A origem da infertilidade é diversa, e estima-se que em 20% das pessoas ela tenha origem genética, enquanto nos 80% restantes seja causada por condições não hereditárias, como doenças adquiridas, idade, hábitos de vida ou fatores ambientais. Quando a infertilidade é de origem genética, ela pode ou não, dependendo da causa, ser herdada pelos filhos do casal infértil que foram gerados com a ajuda de tratamentos.

O texto a seguir apresenta as principais doenças genéticas que podem causar infertilidade em homens e mulheres.

Alterações cromossômicas (número ou estrutura)

Os cromossomos carregam o material genético essencial para o funcionamento das células reprodutivas. Alterações no número ou na estrutura cromossômica frequentemente levam a alguma doença genética e infertilidade também, pois comprometem a formação adequada dos gametas.

Síndrome de Turner (45, X)

Nessa doença genética, a infertilidade pode se fazer presente, pois trata-se de uma desordem cromossômica que afeta o desenvolvimento das mulheres. Ela ocorre quando as células de uma mulher possuem um cromossomo X normal e o outro cromossomo sexual está ausente ou estruturalmente alterado (mulheres sem a síndrome de Turner possuem dois cromossomos X normais em cada célula).

Essa síndrome recebe o nome de “45, X” porque descreve a perda de um cromossomo sexual, resultando em 45 cromossomos e apenas um X, o que explica as características clínicas e reprodutivas da condição.

Síndrome de Klinefelter (47, XXY)

A síndrome de Klinefelter descreve um conjunto de sintomas de desenvolvimento físico, linguístico e social em homens que possuem um cromossomo X extra. Sua principal característica é a infertilidade. A síndrome também é conhecida como “47, XXY” (onde o 47 se refere ao número total de cromossomos) ou “condição XXY”.

Translocações ou inversões cromossômicas

Uma pessoa pode ter todos os 46 cromossomos, mas dois deles podem ter trocado de lugar. Isso é chamado de translocação ou inversão cromossômica. Embora a pessoa seja saudável, seus óvulos (ou espermatozoides) podem acabar com o material genético desbalanceado. Isso pode levar a abortos espontâneos recorrentes ou falhas em ciclos de Fertilização in Vitro (FIV) já que os embriões resultantes não são viáveis.

Microdeleções do cromossomo Y

O cromossomo Y contém genes essenciais para a produção de espermatozoides. Pequenas deleções, denominadas “microdeleções”, podem interromper esse processo. Nessa doença genética, infertilidade tem relação com a ausência de produção de espermatozoides (azoospermia).

Síndromes genéticas e doenças hereditárias

Essas doenças e síndromes afetam genes específicos e podem interferir diretamente na função reprodutiva ou hormonal do paciente. Ou seja, nessas doenças genéticas, infertilidade em homens e mulheres não é incomum.

Síndrome do X frágil

A síndrome do X frágil é a forma mais comum de deficiência intelectual hereditária e é causada por uma mutação no gene FMR1. Estima-se que 20% das mulheres com essa condição apresentem baixa reserva ovariana ou menopausa precoce, em comparação com 1% da população em geral, aumentando o risco de, nessa doença genética, a infertilidade estar presente.

Fibrose cística

A fibrose cística é uma doença genética que causa o acúmulo de muco espesso nos órgãos, bloqueando-os e danificando-os. Em pessoas com fibrose cística, existe uma mutação genética no gene CFTR. Uma das complicações da doença é uma condição chamada ausência congênita bilateral dos canais deferentes (CBAVD), que faz com que os homens nasçam sem os ductos deferentes (canais por onde os espermatozoides são conduzidos), levando à infertilidade masculina. A fibrose cística é uma doença genética, e a infertilidade pode se fazer presente.

Distrofia miotônica

A distrofia miotônica é uma doença hereditária multissistêmica que causa principalmente perda muscular progressiva, fraqueza e miotonia (contrações musculares prolongadas). Ela também pode afetar outras partes do corpo, incluindo o coração, os pulmões e os olhos, e interferir no eixo hormonal reprodutivo. Em homens, pode reduzir a produção de espermatozoides; em mulheres, pode alterar a ovulação e aumentar o risco de complicações gestacionais.

Síndrome de Kallmann

A síndrome de Kallmann é uma desordem genética rara que combina hipogonadismo hipogonadotrófico (falta de produção de hormônios sexuais) com anosmia (perda completa de olfato) ou hiposmia (olfato reduzido). A condição pode atrasar ou impedir o desenvolvimento sexual da criança acometida, fazendo com que nessa doença genética, a infertilidade seja uma complicação importante. Sem o estímulo hormonal adequado, ovários e testículos não funcionam corretamente, levando à infertilidade sem tratamento.

Galactosemia

A galactosemia é uma doença hereditária que impede uma pessoa de processar o açúcar galactose, encontrado em muitos alimentos. O acúmulo deste açúcar pode causar complicações graves, como fígado aumentado (hepatomegalia), insuficiência renal, catarata ou danos cerebrais, além de toxicidade ovariana, resultando em falência ovariana precoce e infertilidade feminina. Nessa doença genética, a infertilidade pode ser evitada quando a condição é diagnosticada e tratada precocemente.

Condições multifatoriais (componente genético + ambiente)

Essas condições surgem da interação entre predisposição genética e fatores ambientais, hormonais ou inflamatórios.

Síndrome dos ovários policísticos (SOP)

A síndrome dos ovários policísticos (SOP) é ​​um desequilíbrio hormonal que ocorre quando os ovários produzem hormônios em excesso, causando um desequilíbrio nos hormônios reprodutivos que pode dificultar a concepção espontânea. Algumas evidências mostram que a SOP tem um componente genético ou hereditário.

Endometriose

A endometriose é uma condição na qual o tecido que reveste o útero, chamado endométrio, cresce em outras partes do corpo, como ovários, tubas uterinas, bexiga, entre outras, causando dores intensas.

Embora os especialistas não saibam a causa exata da endometriose, eles observam uma ligação entre o histórico familiar da doença e um risco aumentado de desenvolvê-la em algum momento da vida. Nessa possível doença genética, infertilidade pode estar presente devido às alterações que podem comprometer a anatomia pélvica e a qualidade dos óvulos.

Trombofilias hereditárias

Trombofilias hereditárias são distúrbios genéticos que aumentam a predisposição à formação de coágulos sanguíneos (trombose). Esses distúrbios, transmitidos de pais para filhos, elevam o risco de trombose venosa profunda, embolia pulmonar e complicações gestacionais, como falhas de implantação, abortos de repetição, entre outras.

Doenças autoimunes

Condições como hipotireoidismo e lúpus podem ter base genética e levar à inflamação sistêmica do organismo, reduzindo a reserva ovariana precocemente, interferindo na ovulação e aumentando o risco de perdas gestacionais.

Como as doenças genéticas podem atrapalhar a gravidez?

Doenças genéticas em homens, mulheres ou em ambos podem causar infertilidade por meio de falha na implantação, incapacidade de ovular ou de produzir óvulos ou espermatozoides saudáveis, ou ocorrência de aborto espontâneo. Essas doenças também podem causar doenças congênitas na criança.

Como antecipar as chances de dificuldades com doenças genéticas na FIV?

A identificação prévia da doença genética pode ser feita por meio do aconselhamento genético e do teste genético pré-implantacional (PGT). O teste genético avalia os embriões criados por meio de Fertilização in Vitro (FIV) para detectar alterações genéticas antes de sua transferência para o útero, a fim de implantar apenas embriões geneticamente saudáveis. Já o aconselhamento genético permite identificar riscos hereditários antes da gravidez, fornecendo informações e apoio aos casais para a melhor tomada de decisão.

 

Fontes

Cleveland Clinic

National Institutes of Health